Desconectados

Estou cada vez mais convicto de que a vida hiperconectada atrapalha. Polêmico? Pela minha experiência, cada vez menos. Acho que estamos surfando o finalzinho da primeira onda das redes sociais, onde o deslumbre e a irrealidade da vida digital tende a se dissipar na próxima década. Acredito nisso como uma previsão, mas confesso certa fé em que isso se realize de fato.

Enxergo essa mudança como uma necessidade natural do ser humano, a de viver a realidade. Acho que de certa forma a possibilidade da reputação digital – me referindo a imagem e vida construídas muito para si e bastante para os outros e que aos poucos vai se acreditando viver em nossos perfis online – acabou distanciando o indivíduo da realidade e tornando-o levemente esquizofrênico.

Percebo uma dissociação entre ação e pensamento, quando vejo declarações de amizade e amor nas timelines, mas não percebo qualquer esforço para um encontro e um abraço. Nada contra as declarações de amor públicas (que a meu ver são até inspiradoras), mas o abraço segue sendo a manifestação mais íntima e profunda de carinho que experimentei. Me desculpe você que vez ou outra passa para dar um like, um inbox, um comment, mas quando passa pela minha cidade ou pela minha rua, não lembra de me chamar para um suco, para trocar um olhar, para lhe dar um abraço. Prefiro mil vezes uma ligação fora de programação do que mil likes em um post.

Guardadas as devidas proporções clínicas da esquizofrenia, delírios e alucinações também estão nesse cardápio. Observo a energia colossal que algumas pessoas gastam no ângulo das fotos, na mensagem da manhã, tudo meticulosamente calculado para construir uma percepção de si mesmo que não dura 30 minutos no mundo real. Gosto de gente que posta a foto legal, mas que registra o momento (tento manter minha timeline assim). Eu percebo a discrepância monumental entre o post fabricado e o post registrado. E os unfollows estão aí para alguns amigos (tanto sociais como reais) que recheiam sua timeline (não a minha) com esse tipo de conteúdo “fake reality”. Já que eu posso escolher o que vou ver, escolho o retrato da vida real. E, vejam bem, não estou dizendo que não se tem direito a escolher uma luz boa, um cenário bonito, ou o seu melhor ângulo para a foto. Estou apenas dizendo que há uma grande diferença entre capricho e fraude.

Não, eu não gosto de grupos do whatsapp. Sim, eu estou em alguns. Participar? Não preciso nem usar todos os dedos de uma mão para enumerar quais.

Na minha opinião, a nova onda das redes sociais vai estar ligada à colaboração no desenvolvimento entre as pessoas. Vai ser uma espécie de central de ativação, onde as pessoas irão se comunicar para, realmente, construir a si mesmo ou alguma coisa. Também não ignoro que isso já aconteça hoje, mas diria que não é o “core business”. Para mim, a nova onda das redes sociais vai acelerar o processo de reunião de pequenos grupos que buscam experiências reais semelhantes, que se organizarão para esse tipo de compartilhamento. Vai ser uma combinação entre a tendência da economia de compartilhamento, com uma espécie de sociabilidade de compartilhamento. Ou seja, vai ser o contrário do que é hoje.

Enquanto essa primeira onda das redes sociais criou pequenas ilhas imaginárias, a próxima irá formar pequenas vilas com imagens bem mais reais dos indivíduos, tratando de aproximá-los e gerando, portanto, um valor e conexão emocional mais relevantes. Isso tornará as experiências mais enriquecedoras e motivadoras, colaborando na formação de seres que, por sua vez, experimentarão uma sensação de pertencimento, inclusão e plenitude, reservando energia para a troca, para o real e não a desperdiçando na construção de uma reputação digital falsa e inútil.

Que a próxima versão da hiperconectividade nos conecte mais como pessoas, diminuindo as distâncias, e não aumentando a dos indivíduos com a realidade. Que seja um futuro com conexões melhores, mais valiosas, enriquecedoras e relevantes.

Escrever para mim é um desafio. Fui desses alunos relapsos na escola, melhorei consideravelmente na faculdade, mas hoje recolho na escrita os frutos das aulas que não prestei atenção, principalmente as de português. Erro muito escrevendo, mas não deixo que isso seja um limitador. A ideia para mim é sempre mais encorajadora que o medo de errar. Escrevo para compartilhar o que acho que aprendi, escrevo para ver se está na hora de mudar de ideia. "Boa ideia não tem dono. Toda boa ideia que eu ouço vira minha – e eu jogo fora minha velha ideia". Flávio Gikovate

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  • Williebordoni

    Rodrigo, adorei suas reflexões lúcidas.
    Também acredito na energia revigorante do abraço, nada é mais humano… Outros pontos que você aborda são muito relevantes também, vejo que a carência (esquizofrenia digital) se materializa muitas vezes no distanciamento e na “imagem pessoal fraudulenta”… Não é de hoje que as tecnologias causam impacto no comportamento humano, portanto tenhamos fé no futuro em que faremos melhor uso delas.
    Grande abraço.

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